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Posted on abr 11, 2010 in Literatura

Oficinas de Escrita Criativa

Oficinas de Escrita Criativa

Ah, escrever! Deleitar-se com as próprias palavras, ou, pelo contrário, sofrer com elas à procura de expressão própria, singular, de preferência reconhecível pelo outro, pelos os outros, pelo mundo. Ou nada disso, então: escrever simplesmente por necessidade, como o músico que adoece se não criar e produzir sons e o pintor que não resiste às telas virgens. Longe das vaidades.

Qualquer que seja a motivação, acontece no Brasil, talvez no mundo, uma corrida, sobretudo de jovens, às técnicas de redação. A maioria quer redigir suas próprias criações, mas há, ainda, os que gostariam de se expressar melhor, produzir um bom relatório empresarial, passar no vestibular.

Só existem dois caminhos para aprender a organizar palavras: o autodidatismo, escolha da maioria dos escritores, e as oficinas de escrita, também chamadas de “escrita criativa”, cursos de produção fictícia ou cursos de literatura, mesmo. Mas a pergunta se impõe: será que alguém ensina alguém a escrever?

MESTRES E MAIS MESTRES
“Minha oficina começou há exatamente 25 anos, dentro do então curso de pós-graduação em Letras da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS)”, diz o professor Luiz Antonio de Assis Brasil. “Surgiu da ideia de unir minha condição de escritor com o fato de ser professor por profissão e gosto. Inicialmente, fui tateando, experimentando, errando. Tive a boa vontade de meus alunos – ou vítimas. Procurei concentrar-me nas coisas que me ocorriam como escritor – fui o modelo de mim mesmo. Tentei organizar tudo isso para transmitir aos alunos, mas sempre respeitei o modo de escrever de cada um deles; a literatura é o território da liberdade e seria uma contradição limitá-los a copiar o meu modus literário.” Continua: “Com o passar do tempo, consegui organizar um programa a ser desenvolvido por etapas. O projeto inicial previa um semestre, mas foi pouco e expandimos para um ano. Ao que parece, esse é o tempo ideal, em que as pessoas conseguem aturar-se e ao professor. O que trabalho? Creio que posso resumir: exercícios de desbloqueio criador; prática das diferentes técnicas narrativas; criação da personagem; construção do tempo, do espaço”. Essa trajetória começou em uma cidade do interior do estado, onde ele vivia. Sem atrativos, era natural que o garoto se tornasse um grande leitor. Os jesuítas, sempre lembrados por certo radicalismo pedagógico, o obrigaram a ler bons livros. Primeiro os clássicos e só muito tempo depois os contemporâneos. Virou excelente aluno de redação. Hoje, usa sua própria experiência: “Boas leituras são indispensáveis, essenciais. Mas o trabalho da escritura tem a mesma importância. Trabalho com alguns exercícios de intertextualidade, como a paráfrase”. Assis Brasil mantém uma turma pequena de 15 alunos. Este ano está recebendo cinco discentes de fora do Rio Grande do Sul.

Raimundo Carrero, um dos pioneiros de oficina no Brasil, tem turmas no Recife, no interior de Pernambuco e por todo o país, para onde viaja a convite. Ele vai logo desmitificando: “Alguns jovens, sobretudo os jornalistas, descobriram que sabem tudo, aprenderam tudo, menos escrever. E nos procuram. Mas nem sempre os alunos querem ser escritores: a eles, basta saber ler. Está bom demais”.

O público de Raimundo, como ele mesmo diz, “é o mais heterogêneo possível, desde menino de vestibular até aposentados”. Esse pioneiro foi convidado, nos anos 1980, a participar do célebre Encontro Internacional de Escritores, em Iowa, nos Estados Unidos. Foi um dos 20 convidados. Na volta, criou sua oficina e já tomou um susto: foi procurado por dezenas de pessoas. Hoje, cuida de três turmas, com média de dez alunos cada.

Raimundo Carrero revela seus métodos, sem problemas. Hoje, está propondo o estudo de A educação sentimental, de Gustave Flaubert. “Este livro é ótimo para exames e estudos. Também produzo apostilas. Antes, não havia nada; hoje, bibliotecas inteiras.” Flaubert talvez seja o mais lido e analisado em oficinas, na frente de Clarice Lispector, Graciliano Ramos, Rubem Fonseca, Nelson Rodrigues e Ernest Hemingway – os mais citados.

Charles Kiefer, professor da PUCRS e criador de oficinas, também teve seu começo na Universidade de Iowa, em 1986. “Naquele ano, fui o escritor brasileiro no International Writing Program. Lá, vi que as oficinas eram comuns em países desenvolvidos. Ao retornar, abri a minha primeira, na Casa de Cultura Mario Quintana. Somente três alunos. Nunca mais parei. Hoje, milhares já passaram por mim; a lista de e spera tem mais de 1.400 pessoas.”

Realmente, os números do professor impressionam: “Cada grupo tem 30, 40 alunos. Tenho uma empresa só para cuidar de oficinas em que trabalham comigo os escritores Luiz Antonio de Assis Brasil, Moacyr Scliar, Luis Fernando Verissimo, Armindo Trevisan, Donaldo Schuler, Regina Zilberman, Luciano Alabarse, Sergius Gonzaga etc. São mais de 400 alunos”.

Charles Kiefer prefere não falar de seu método de ensino (“assim como a Natura e a Coca-Cola não revelam seus segredos, eu também não”), mas chama a atenção para resultados incríveis. São dezenas de alunos ganhando concursos e publicando livros.

“Faço uma seleção rigorosa. Transfiro alunos de uma turma a outra, conforme os perfis. Desmancho grupos que não funcionam. Isso gera certo estresse, mas quem entra para o meu time já sabe: o método é obstinado. Sem ilusões. Meus alunos estudam de Aristóteles às modernas teorias literárias.”

SEM CONCESSÕES
Os antigos alunos jamais se esquecerão das oficinas do escritor João Silvério Trevisan, romancista premiado, jornalista, dramaturgo, tradutor e cineasta. João, que juntou sua primeira turma em 1987, é conhecido por suas aulas “intensas”, segundo definem seus alunos. “Tenho orgulho de dizer: criei meu próprio método. Durante anos, experimentei metodologias, exercícios, contatos, jeitos. Depois, iniciei as aulas literárias na Oficina Cultural Três Rios, recém-criada em São Paulo. Para mim, o trabalho pedagógico das oficinas é um compromisso vital, tanto quanto a própria literatura. Como coordenador, não brinco em serviço. Exijo atitude profissional: sempre digo que escritor de fim de semana é amador. Escrever é algo cotidiano, ainda que não seja profissão, já que o aluno tem outros compromissos.”

João configurava suas oficinas com um máximo de 20 participantes, duração de quatro meses de trabalho; dois encontros por semana; três horas por encontro. Não indicava livro algum. “O essencial é a criação de textos com base em estímulos que apresento aos alunos. Todos têm de dar opinião sobre os textos de todos. Parto de umo princípio que:, para analisar seu próprio texto, é fundamental analisar o alheio.”

João Silvério Trevisan não está dando oficinas neste momento, apesar de receber muitos convites. Por quê? “Remuneração aviltante e amadorismo total na organização dos esquemas de pedagogia literária. Oficina virou algo apenas para encher espaço, com poucos gastos. Não tem projeto cultural ou contextualização programática. Por isso, defendo, há dez anos, a ideia de uma escola de criação literária.”

João revelou ao mercado os escritores Nelson de Oliveira, João Luiz Carrascoza e Roberto Causo. “Dos outros alunos, não tenho ideia. Muitos seguiram a carreira jornalística, outros foram para a tevê.”

TERAPIA?
Há oficinas diferenciadas a partir de seu público. É o caso do espaço de Oswaldo Pullen Parente, em Brasília, cujo trabalho de coordenação começou recentemente: em 2006, ele procurou cursar uma oficina, em Brasília, e não encontrou nenhuma. Um ano depois, já tinha a sua.

“Não é um curso de literatura, nem de português. Sou apenas um oficineiro.” Ele é mais procurado por profissionais da área privada, com mais de 40 anos, e por muitos aposentados. Oswaldo também recebe indicações de terapeutas e considera isso normalíssimo. “Um barato.” “Às vezes, minha oficina fica com cara de terapia de grupo. Até briga, dá!”

Marcelino Freire, escritor pernambucano da nova geração, premiado e divulgado, é ex-aluno de Raimundo Carrero. Aos 19 anos, largou um emprego de banco para mergulhar no estudo da literatura. Trouxe na memória Dalton Trevisan e Clarice Lispector. Mas, nas aulas de Carrero, surgiram outros mestres, como Graciliano Ramos e, é claro, Gustave Flaubert.

“Flaubert era um obcecado, um cara que trabalhava a palavra até as últimas”, diz ele. “Mas Flaubert não me encanta tanto. Sou mais fissurado na concisão do mestre Graciliano.”

Aos alunos, Marcelino manda “ouvir a rua”. “Minha oficina é uma grande conversa, um papo apaixonado sobre literatura. Minha turma tem de ter no máximo 20 participantes. Vários deles já publicaram. Acompanho os avanços. Vou fundo, cutuco. Todos querem soltar os cachorros do peito. Aí, organizo o canil.”

Bem diferente da professora Rosa Maria Cuba Riche, do Rio de Janeiro, que abriu a Oficina da Palavra APLIC, em 1986. Autora de livros sobre leitura e redação, a professora dá atenção especial às necessidades culturais da periferia. Seu público é composto de crianças, adolescentes e profissionais de todos os tipos, inclusive jornalistas e taquígrafos da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Deputados reclamavam de que as notas taquigráficas não eram fiéis às suas falas. Agora, estão satisfeitos.

O OBJETIVO: ELES
E os alunos? Ou, para quem não gosta de ser chamado assim, os participantes? É impressionante, mas quase todos dizem praticamente o mesmo: que já escreviam antes “alguma coisinha”; que a oficina não molda ninguém; que apenas dá senso crítico, um pouco de humildade diante de críticas; que de forma alguma foram influenciados no conteúdo de suas criações.

A poetisa Anita Costa Malufe, com livros publicados , faz oficinas e acredita que há preconceito de muitos escritores com medo de um “molde” que lhes seria impingido. Aberta às experiências e generosa nas avaliações, Anita reconhece a importância de Regina Gulla, coordenadora de sua primeira oficina, na sua formação de poetisa e leitora.

Nelson de Oliveira, aluno de João Silvério Trevisan, hoje trabalha como coordenador de oficinas e tem uma visão levemente dramática da sua primeira experiência: “Foi extenuante, uma autodescoberta. A oficina me mostrou o que realmente eu estava a fim de fazer: escrever, construir uma carreira. Eu escrevia sem me comprometer muito com uma ideia mais sofisticada de literatura. As duras provações da oficina moldaram meu caráter.” Nelson já publicou mais de 20 livros e continua produzindo freneticamente, como escritor e professor.

O contista Juarez Cruz, médico psiquiatra de profissão, com livros publicados e prêmios ganhos, dá grande importância ao “olhar do outro” numa oficina. “O olhar, a leitura e a opinião do outro liquidam, de modo muito salutar, o embevecimento narcísico e aponta: ‘Olha, essa ideia não está clara etc. etc.’”

Alguns alunos são especialmente humildes, como Rodrigo Rosp, dois livros publicados, muito elogiado no meio literário e dono de frases assim: “Numa oficina, acho que, sobretudo, aprendi a diferenciar um texto profissional de um amador. Aprendi a ter cuidado enorme com a frase, revisar, ler em voz alta o texto para experimentar a sonoridade. ”As oficinas de escrita multiplicam-se pelo país e, independentemente de sua qualidade, o saldo será sempre positivo. Estimulam a leitura e o consumo de livros. ”


OUTRO LADO

Como tudo na vida tem contraponto, há quem diga que oficina de escrita não serve de nada. A opinião vem de Louis Menand, articulista da revista The New Yorker – leitura obrigatória do meio literário sofisticado. “Programas de escrita criativa são baseados na teoria de que estudantes que nunca publicaram um poema podem ensinar a outros estudantes como escrever um poema publicável”. Teve coisa pior. Hanif Kureishi, elogiadíssimo escritor inglês de origem paquistanesa, disparou: “As oficinas literárias são os novos hospitais psiquiátricos”.



retirado de: http://www2.livrariacultura.com.br/culturanews/rc33/index2.asp?page=materia1