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Posted on abr 16, 2010 in Literatura

Reflexões literárias

Publicado no Jornal A Gazeta – Caderno Dois – 16/04

Tiago Zanoli

tzanoli@redegazeta.com.br


Em 1980, quando se tornou professor do Departamento de Letras da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Francisco Aurelio Ribeiro quase nada sabia sobre a literatura produzida por autores do Estado. A partir daquele momento, começou a estudar a produção literária local, cujas pesquisas culminaram em sua tese de doutorado pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Esta, por sua vez, deu origem ao livro “A Modernidade das Letras Capixabas” (1993).

Após três décadas dedicadas a refletir sobre a literatura produzida no Espírito Santo ou por autores capixabas, Francisco reúne agora dez ensaios de historiografia e crítica literária, alguns já publicados em livros e revistas, em “A Literatura do Espírito Santo”. A obra será lançada hoje à noite, em Vitória, na Assembleia Legislativa, durante o I Encontro de Escritoras Capixabas – ocasião em que o autor receberá a comenda Cora Coralina pela Academia Feminina Espírito-Santense de Letras.

Leia trecho do livro A Literatura do Espírito Santo, de Francisco Aurelio Ribeiro

Segundo Francisco Aurelio, a criação da Editora da Fundação Ceciliano Abel de Almeida, em 1978, foi o fato mais marcante da produção literária local. Como consequência, a década de 80 foi de grande efervescência, tendo a editora, ao longo de 16 anos, publicado mais de 300 títulos, revelado jovens autores e consagrado outros tantos.

“Até então, a maior dificuldade era publicar. Muitos autores, como Bernadette Lyra e Reinaldo Santos Neves, conseguiram publicar seus livros nos anos 80 e tiveram boa mídia e ótima repercussão, especialmente por terem sido adotados nos vestibulares da Ufes. A partir dos anos 90, sobretudo com a criação da Lei Rubem Braga, da Prefeitura de Vitória, houve um grande incremento da produção – prejudicado, porém, pela desvalorização do objeto livro”, observa Francisco, que, além de escritor e professor, é também presidente da Academia Espírito-Santense de Letras.

Para demonstrar o quanto o livro foi desvalorizado, ele diz que, apesar do aumento da população, a tiragem média de livros, atualmente, não ultrapassa mil exemplares. “Às vezes fica em 500. Acompanho e vivo isso há 30 anos, como autor, professor e crítico literário. Se nos anos 80 era difícil publicar, a circulação das obras não era problema. Nos anos 90, a situação se inverteu. Hoje, no Estado, para conseguir vender, a gente põe os livros até em hortifruti, porque nem as livrarias estão aceitando mais.”


Marginalidade


Essas dificuldades, apontadas por Francisco, certamente justificam a escolha do primeiro ensaio do livro, no qual afirma que a literatura produzida no Espírito Santo pode ser considerada “marginal” e “periférica”, geográfica e culturalmente, existindo à margem daquela produzida nos grandes centros do país, como Rio de Janeiro e São Paulo. Motivo pelo qual escritores como Reinaldo Santos Neves, Bernadette Lyra, Adilson Vilaça, Francisco Grijó, Waldo Motta e Sérgio Blank, entre tantos outros, ainda sejam pouquíssimo conhecidos, até mesmo entre seus conterrâneos.

Em outros textos, resgata e analisa a produção literária de escritoras capixabas, destacando, por exemplo, o pioneirismo de Adelina Tecla Correia Lyrio (1864-1938), considerada a primeira escritora capixaba. A vida e a obra de Afonso Cláudio (1859-1934) também é lembrada no presente volume.

A obra também traz os ensaios “O Academicismo na Literatura do Espírito Santo”, “Juristas-Literatos: Construtores da Cultura Acadêmica Capixaba”, “A Crônica e os Cronistas Capixabas: Olhar e Narrar; Ver e Perguntar” e “Modernidade Ainda que Tarde: A Literatura dos Capixabas”. O último texto apresenta um panorama da produção local, de Afonso Cláudio a Renato Pacheco (veja no quadro abaixo alguns personagens que se destacaram).

Depois de pesquisar a fundo e comparar a produção literária local com a de outras regiões, Francisco garante que não há particularidades que justifiquem o rótulo “literatura capixaba”. “O que se faz aqui não é diferente do que se faz no Brasil ou no mundo inteiro. O sagrado e o profano na poética de Waldo Motta ou o feminino na obra de Bernadette Lyra, por exemplo, tudo isso você encontra na boa literatura universal. Não somos diferentes nem provincianos, temos bons escritores fazendo boa literatura. O problema é a falta de conhecimento sobre o que é feito aqui”, lamenta.

Com essa obra, Francisco Aurelio pretende deixar como legado suas reflexões sobre o tema, especialmente para os mais jovens. “Esses livros que publico agora são quase um testamento”, diz, acrescentando que não tem interesse nem dá conta de analisar a literatura produzida no meio eletrônico.

“Custei a me convencer disto, mas o livro em papel, como conhecemos, vai mesmo dar lugar aos novos suportes, como Kindle, iPad, audiolivros. Até por uma questão ecológica. Acredito que haverá apenas uma pequena produção, com livros de alta qualidade e acabamento de luxo, para bibliófilos”, completa.

Confira
Francisco Aurelio Ribeiro
Literatura do Espírito Santo: Ensaios, História e Crítica

Formar 140 páginas
Quanto: R$ 20
Lançamento: Hoje, 19h, durante o I Encontro de Escritoras Capixabas, na Assembleia Legislativa. Av. Américo Buaiz, 205, Enseada do Suá, Vitória


Autores analisados no livro

  • Afonso Cláudio. (1859-1934) Autor de várias obras sobre direito, história, literatura, filosofia e folclore, foi também membro-fundador do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo e da Acadêmia Espírito-Santense de Letras, tendo sido o primeiro acadêmico, da cadeira 1.
  • Adelina Tecla Correia Lyrio. (1864-1938) Primeira escritora capixaba. Antes dela, outras mulheres publicaram em jornal, mas Adelina foi a primeira a cultivar a arte literária, sendo reconhecida, em seu tempo, como uma escritora em pé de igualdade com os homens, deles recebendo aplausos e críticas.
  • Guilly Furtado Bandeira. (1890-1980) Natural de Vitória, foi a primeira autora brasileira a entrar numa Academia de Letras, no Pará, em 1913 (na foto acima, ela aparece entre os demais membros da academia). Sua obra “Esmaltes e Camafeus” foi o primeiro livro escrito por uma mulher capixaba, por volta de 1917.
  • Maria Antonieta Tatagiba. (1895-1928) Nascida em São Pedro de Itabapoana, conseguiu projeção literária em um universo masculino e machista, sendo a primeira autora do Espírito Santo a consagrar-se, em sua época, poeta de mérito e reconhecida entra seus pares.
  • Mesquita Neto. Pseudônimo de Otávio José de Mendonça (1901-1975), poeta, cronista, contista e romancista, como diretor do jornal A GAZETA foi um dos principais incentivadores das produções literárias locais, abrindo as páginas das edições domingueiras com os trabalhos dos escritores capixabas.
  • Lídia Besouchet. (1908-1997, foto acima) Natural de Porto Alegre (RS), mudou-se para Vitória na adolescência. Na década de 30, iniciou sua publicação literária em jornais cariocas. Seu primeiro romance, “Condição de Mulher” (1947), retrata, ficcionalmente, diversos perfis de mulheres divididas entre a luta revolucionária, o comunismo e o papel que lhes reservava a sociedade tradicional da época: mãe, esposa, dona de casa, submissa e apolítica.
  • Rubem Braga. (1913-1990) Dos autores nascidos no Espírito Santo, é o mais conhecido nacionalmente. Considerado o criador da crônica moderna, com seu lirismo, subjetividade, imaginação poética e simplicidade clássica, conferiu status literário ao gênero antes desprezado pelos intelectuais.
  • José Carlos Oliveira. (1934-1986, foto à dir.) Iniciou sua carreira literária como cronista na imprensa local. Aos 18 anos, em 1952, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde foi cronista do “Jornal do Brasil” durante 23 anos. Encarnou o espírito dos anos rebeldes e da contracultura, sobretudo nas décadas de 60 e 70. Suas crônicas eram reflexo da inquietude daquela geração questionadora e crítica.