Pages Menu
TwitterRssFacebook
Categories Menu

Posted on set 13, 2011 in Destaque, Literatura

Perry Rhodan, 50 anos

Perry Rhodan, 50 anos

Perry Rhodan é a série de ficção científica mais vendida e mais numerosa do mundo, e completou 50 anos no último dia 8 de setembro. Criada por K. H. Scheer e Clark Darlton (Walter Ernsting), dois autores alemães de FC, teve como primeiro episódio Unternehmen Stardust – ou “Missão Stardust” -, lançado 8 de setembro de 1961 com uma tiragem de 35 mil exemplares. Hoje Perry Rhodan já ultrapassou os 2600 episódios em seu país de origem.

 

Seu surgimento se insere dentro de um momento do pós-guerra caracterizado por uma espécie de “internacionalismo” ou de um primeiro momento de “globalismo cultural”, em que, ao pensarmos no Brasil, tínhamos a Bossa-Nova conhecida no mundo todo; ao pensarmos na Inglaterra, tínhamos James Bond conhecido no mundo todo; ao pensarmos na França, tínhamos Asterix conhecido no mundo todo; ao pensarmos na Bélgica, tínhamos Tintin conhecido no mundo todo; ao pensarmos no Japão, tínhamos Godzilla conhecido no mundo todo; ao pensarmos nos Estados Unidos, tínhamos os quadrinhos de super-heróis conhecidos no mundo todo. Em Hong-Kong, os filmes de kung fu; na Itália, o western spaguetti, e assim por diante… Ao pensarmos na Alemanha, tínhamos Perry Rhodan conhecido no mundo todo, ainda que apenas junto ao público especializado em ficção científica.

 

A gênese da série alemã se deu ao final de 1960, quando Scheer e Ernsting, então já conhecidos no campo da ficção científica alemã, conversavam no terraço do apartamento de Ernsting em Irschenberg, na Alta Baviera, tendo a visão dos Alpes diante de si. Apresentados os planos ao editor Kurt Bernhardt, da Pabel Verlag de Munique, a dupla de autores é surpreendida com a exigência de Berhnardt de que Perry Rhodan fosse publicada em episódios semanais.

 

De volta a Irschenberg, Scheer e Ernsting devotam-se a um planejamento que inclui a concepção de personagens e contextos. Segundo A. J. Thalberg, no artigo “La saga de Perry Rhodan”, “os personagens secundários apareceram e desapareceram”, e citam uma irmã de Perry, Cora Rhodan, que nunca foi vista, assim como o seu fiel amigo Robert Molldick, que acabou como apenas um rascunho do que seria Reginald Bull (ou “Bell”, na versão americana), companheiro de Rhodan desde o início da série. Quanto ao herói, teria nascido em 8 de junho de 1936, em uma pequena cidade do Meio-Oeste americano.

 

A série sempre foi desenvolvida por uma equipe de autores – numa prática conhecida como “mundo partilhado” ou shared world -, com muita alternância ao longo dos anos. Logo de cara, para atender à exigência de periodicidade semanal, foram contratados quatro outros autores, além dos dois “pais” da série. A resposta do público foi entusiástica, fazendo valer o investimento. Scheer e Ernsting foram surpreendidos não apenas pelo “entusiasmo” de Bernhardt, mas também pela longevidade da série – eles supunham que ela duraria no máximo cinquenta episódios.

 

Para The Encyclopedia of Science Fiction (1979), “Quando todas as traduções são incluídas, então PR tem mais leitores do que qualquer outra coisa dentro da FC”. Em sua versão de 1993, The Encyclopedia afirma que a série “é na verdade lida, segundo pesquisas, por leitores de todas as idades, tanto homens quanto mulheres”.

 

Perry Rhodan chegou ao Brasil primeiro em 1966 ou ’67, como o volume 14 da coleção Galáxia 2000, Operação Astral, traduzido de uma edição francesa que agrupava sob um único título os dois primeiros episódios: Missão Stardust e A Terceira Potência, e creditada apenas a Scheer (Darlton escreveu o segundo episódio, definido no livro como “Segunda Parte”).

 

A série propriamente dita só seria lançada em 1975 pelas Edições de Ouro (Ediouro), uma marca da Tecnoprint, do Rio de Janeiro. Depois de interrupções e recomeços, passou a ser publicada pela SSPG, de Belo Horizonte, e sofre agora nova interrupção. Seus editores anseiam por retomá-la, e a perspectiva é de que isso ocorra em algum momento de 2012.

 

Sou um grande fã da série. De fato, meu contato com a ficção científica na literatura se deu quando comprei meu primeiro Perry Rhodan, em uma banca de revistas na cidade de Sumaré, SP, onde vivia. Foi o P24, Na Selva do Mundo Primitivo, edição da Tecnoprint. Na capa figurava: “A maior série de ficção científica do mundo”. A partir dessa retumbante informação, passei a comprar outras obras anunciadas como de “ficção científica”, que encontrava em bancas de revista ou em livrarias.

 

Meu fanatismo por Perry Rhodan era tão grande, que costumava, ao sair da escola, esperar o dono da banca mais próxima, o Sr. Miguel Moreno, chegar de Campinas com as revistas que ele ia apanhar na distribuidora. E atormentava a vida dos meus amigos, para que lessem os livrinhos.

 

Depois explorei a possibilidade de obter os números atrasados pelo reembolso postal. Daí surgiu o meu longo, estimulante e frutífero relacionamento com a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos. Logo estava lendo um Perry Rhodan a cada dois dias, pelo tempo que demorei para completar as lacunas da coleção.

 

Mais tarde, vim a conhecer outros fãs ativos de ficção científica. O primeiro foi o mineiro José Carlos Neves, a quem escrevi depois de ler uma carta dele na revista Cinemin, buscando contato com aficcionados. Zé Carlos era na época co-editor, com Cesar R. T. Silva e Mário Dimov Mastrotti, do fanzine Hiperespaço, que abriu para mim as portas do então jovem fandom brasileiro de FC. Isso foi em 1983. Nessa época eu já ia a Campinas, cidade vizinha, comprar mensalmente a revista Famous Monster of Filmland, editada por Forrest J. Ackerman, que fora editor da edição americana do Perry Rhodan. Muitos anos mais tarde, cheguei a me corresponder brevemente com Ackerman, e até a negociar com ele, que era agente literário, uma novela de Stanley G. Weinbaum. Ele estava relançando Famous Monsters, lá por volta de 1997, e eu me ofereci para ser o seu correspondente brasileiro, mas infelizmente a reencarnação da revista sob controle dele teve vida curta.

 

Em 1971 (com os autores projetando os eventos para dez anos no seu futuro) o Major Perry Rhodan e seus companheiros tripulantes da nave espacial norte-americana Stardust encontram, no lado escuro da Lua, uma espaçonave avariada, proveniente de um vasto império estelar em decadência, controlado pelos arcônidas. O encontro é descrito no primeiro volume, Missão Stardust. Os dois comandantes arcônidas, Crest e Thora de Zoltral, querem usar Rhodan para encontrar a cura para a doença que aflige Crest, mas terminam como náufragos na Terra, ajudando Rhodan a criar a Terceira Potência, uma força tecnologicamente superior, que obriga as demais potências da humanidade a eventualmente se unirem para enfrentar os desafios da política e de conflitos militares em escala galáctica.

 

A Terceira Potência, além da tecnologia arcônida superior e dos jovens idealistas que se unem a ela, conta com um “Exército de Mutantes” (O Exército de Mutantes e Mutantes em Ação), recrutados de todas as partes do mundo e chefiados pelo australiano John Marshall. Gucky, o rato-castor telepata, telecineta e teleportador, um dos personagens mais constantes e carismáticos da série, surge no episódio de número 17, O Planeta do Sol Moribundo. (Seria difícil provar, mas Gucky pode ter sido inspirado pelo camundongo falante Reepicheep ou Ripchip, criação de C. S. Lewis que aparece em dois dos livros das Crônicas de Nárnia, Príncipe Caspian e A Viagem do Peregrino da Alvorada. Ripchip tem afetações francesas, maneiras cavalherescas e uma inabalável disposição para a aventura, caindo freqüentemente em situações engraçadas.)

 

Rhodan e seus seguidores embarcam numa odisséia interestelar, na qual resolvem o mistério proposto por Ele ou Aquilo, uma consciência coletiva também conhecida como O Imortal, que concede a um grupo seleto de seres humanos a imortalidade através da “ducha celular”. Em casa, Rhodan precisa vencer um contra-exército de mutantes, montado por um poderoso hipno (mutante capaz de impor sua vontade sobre as pessoas). Quanto mais avança no cenário galáctico, com a ajuda do seu Exército de Mutantes e de vários aliados que vai obtendo pelo caminho, mais Rhodan e os terranos ficam na mira dos arcônidas, que, descobrem, está sob o comando do Robô-Regente de Árcon (que por sua vez revela-se como um mundo triplo, artificialmente conjugados em torno do sol do sistema), que havia assumido o controle do Império, diante da decadência física e mental dos arcônidas. O Regente, na verdade um gigantesco cérebro positrônico, obriga-os a realizarem tarefas ingratas pelo Império Arcônida. O ciclo termina – em A Morte da Terra – com um grande embuste lançado contra o Regente: Uma falsa Terra é destruída pelos arcônidas, e o Sistema Solar, incógnito, torna a submergir em um véu de segredo. Esse é o primeiro ciclo da série, “A Terceira Potência” (episódios 1 a 49), que vai, na cronologia interna da série, de 1971 a 1984.

 

Muitos outros ciclos viriam, lançando a humanidade cada vez mais longe no tempo e no espaço, a partir da conquista, apropriação ou desenvolvimento de novas tecnologias, e da aliança com novas espécies alienígenas.

 

Atualmente, a primeira edição de Perry Rhodan prossegue na Alemanha com mais de 2600 episódios publicados. Segundo o especialista brasileiro, César Maciel, há uma quinta edição em andamento, que já superou os 1500 títulos. Ele também observa que há uma profusão de produtos, além da série propriamente dita, no formato Heftroman. Há os “Silberbände” (capa prateada), que são antologias em capa-dura, reunindo de vários episódios de tema relacionado – cerca de 115 até o momento. Tanto o Heftroman quanto o Silberbände estão disponíveis como e-books. “A tiragem atual dos Heftroman (primeira edição) é de 102.000 exemplares semanais”, Maciel informa, “e cada exemplar custa 1,95 euro. Em relação aos e-books e audiobooks, a editora apenas divulgou que a venda desses formatos tem crescido continuamente nos últimos anos”.

 

Maciel estará no final deste na Alemanha para a WeltCon 2011, a convenção mundial de Perry Rhodan, onde se espera que será lançada a grande novidade referente à série: o Perry Rhodan NEO, um reboot da série em que o encontro de Rhodan com os arcônidas na Lua se dá no ano de 2036. Fala-se na atualização de tecnologia e do contexto político e econômico, talvez até ambiental, além de se rever a caracterização de alguns personagens centrais da série, embora secundários em relação a Rhodan. O ilustrador Dirk Schulz fará as capas. Fala-se também que a redação da série teria se inspirado em um projeto de fan-fiction, “Perry Rhodan Reloaded”.

 

O primeiro episódio de Perry Rhodan NEO será lançado na altura do Nº 2612 da série normal. Uma capa, com o título assinado por Frank Borsch, já apareceu. Tem o título de Sternenstaub – “poeira de estrelas”, ou o nome da nave americana que vai à Lua com Rhodan, Stardust.

Para aqueles que, como eu, consideram que o primeiro ciclo como o melhor de todos, será muito interessante ver como os autores atuais reinterpretam o papel do seu herói espacial, perante as dificuldades contemporâneas. O Rhodan de 1971 foi um herói algo revolucionário por perceber que era preciso ir além da divisão do mundo pela Guerra Fria e unir a humanidade para enfrentar os problemas do cosmos. O que o Rhodan de 2036 fará com um mundo em crise econômica, em choque de civilizações, à beira da catástrofe climática, dividido pela guerra contra o terrorismo global e com apenas uma superpotência planetária?

 

Inspirado por Perry Rhodan e outras leituras de ficção científica, eu iniciei uma série de space opera militar chamada “As Lições do Matador”, que tem como protagonista o herói espacial brasileiro, Jonas Peregrino, um oficial militar às voltas com alienígenas que atacam com esquadras de naves-robôs, em uma região da Via Láctea conhecida apenas como “A Esfera”. Duas noveletas com o herói já apareceram em antologias: “Descina no Maelström” (em Futuro Presente, editada por Nelson de Oliveira em 2009) e “Trunfo de Campanha” (em Assembleia Estelar, editada por Marcello Simão Branco em 2010). A primeira aventura cronológica do herói, Glória Sombria, uma novela, está programada para sair este ano pela Devir.

 

Em Glória Sombria, Jonas Peregrino aparece lendo a sua série favorita, Perry Rhodan Ucronia: A Esfera. Minha idéia era a de que, no século 25, o herói da FC alemã seria trazido de volta à existência literária e seu universo ficcional adaptado ao contexto dos conflitos na Esfera. Não é o mesmo conceito de Perry Rhodan NEO – projeto do qual eu não tinha conhecimento, quando pensei na homenagem incluída em Glória Sombria -, mas creio que ele partilha da mesma fonte que motivou fãs como eu a pensar em Perry Rhodan Reloaded, e a redação da série em Perry Rhodan NEO: o amor pela série e a admiração pela sua longevidade. Talvez ela dure mais 50 anos.

 

Texto de: Roberto de Sousa Causo

Adaptado de: http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI5341422-EI6622,00-Perry+Rhodan+anos+o+futuro+da+serie.html