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Posted on jun 15, 2011 in Clube de Leitura, Destaque

A Cor Púrpura

A Cor Púrpura

Lido em algum momento na década de 1980 e em maio de 2011.

Entre waffles regados a mel, manteiga e geleia, e muitos livros para fazer companhia, lá estávamos, reunidos, para discutir o livro do mês: “A Cor Púrpura”, romance da escritora norte-americana Alice Walker. A noite fria, convidativa, e o capuccino, quentinho e cremoso, completaram o cenário no acolhedor Cacciari Café, Barra do Jucu (que também sediou o encontro do “Sandman”, em fevereiro, e, pelo jeito, sediará outros mais).

Pode não ter muita importância na narrativa, mas – por falar em delícias culinárias – lembrei que, volta e meia, os personagens de “A Cor Púrpura” estão em torno de uma mesa. Quando Celie e Shug se conhecem, é através da comida que elas estabelecem o primeiro contato:

“Ela toma o café, fuma o cigarro. Eu mordo um pedaço bem suculento de presunto feito em casa. Você pode sentir o cheiro desse presunto a um quilômetro de distância quando ele tá cuzinhando. Ele perfuma todo o quarto dela num instante. Eu lambuzo a manteiga num biscoito quente, fico passando bem devagar. Ensopo o presunto no molho de carne e misturo o ovo cum o fubá. Ela fuma e fuma. (…) Finalmente ela diz: ‘Celie, eu acho queu quero tomar um copo d’água’. (…) Vou buscar um copo d’água pra ela. Volto e pego meu prato. Parece que um ratinho andou roendo o biscoito, um gato fugiu cum o presunto”.

Casa, comida, linha, agulha, costura. “A Cor Púrpura” segue 30 anos na vida de Celie: mulher, negra, pobre, nada, como seu marido, o “sinhô”, faz questão de apontar. Sabemos de sua história pelas cartas que escreve a Deus. A forma brutal como se descobriu grávida, duas vezes, ainda menina. A separação dos filhos. O casamento forçado. As surras. O trabalho sem fim, em casa e na roça. A indiferença. E a saudade da irmã Nettie, de quem também é obrigada a se separar.

Mas o livro prega algumas peças no leitor: “Faltou coragem para matar todo mundo”, brincou Silvio. Acontece que a história que Walker queria contar era outra mesmo. Nas cartas endereçadas a Deus (e depois a Nettie), acompanhamos a evolução de Celie como pessoa, amiga, madrasta, companheira, amante, irmã. Se Celie conseguir se salvar, será pelo poder da cooperação e da compreensão, principalmente entre as mulheres.

Cada uma a seu modo, as mulheres que entram na história ajudam Celie a enxergar a luz. Sofia é uma força da natureza. Shug (Doci, na versão brasileira), a sedutora rainha das abelhas. Das personagens principais, Nettie, aparentemente, é a mais distante da natureza: ela é a jovem educada, cuja força e sabedoria vêm (também, mas não só) de uma inteligência cultivada.

“A gente lê o livro e sente o cheiro da grama, da poeira daquelas estradas do interior…”, comentou Simony. A natureza, bem lembrou Silvio, é a representação do sagrado feminino. E ela (a natureza) parece dizer: ei, essa é uma história de mulheres, de suas colaborações e interações.

“A Cor Púrpura” é um romance feminista. A educação e o trabalho abrem caminhos e possibilidades para algumas personagens. Alice Walker nos faz ver o quanto o patriarcado se vale da violência, da religião, da ignorância imposta às mulheres, do preconceito, para manter todos aprisionados. Mulheres e homens. E o quanto o afeto, a casa, a família e os laços que vão sendo construídos são ainda mais resistentes e transformadores.